segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Platinum Cineplex - A magia do grande ecrã chegou a Díli!

Hoje a nossa noite incluiu: sair de casa depois do jantar, bilhetes, pipocas e óculos 3D...Já adivinharam onde fomos? É verdade fomos ao cinema em Díli! Abriu em Dezembro passado o Platinum Cineplex, o primeiro cinema de Díli, hoje foi a nossa estreia e não podiamos ter vindo mais satisfeitos!
O cartaz conta com quatro títulos de filmes de Hollywood, Bollywood ou cinema indonésio. Esta semana todos os filmes são de Hollywood e a diversidade da oferta promete agradar a todos os gostos, ora vejam: A vida de Pi; Hitchcock; Os Mercenários 2; e Sarilhos em Família.
Optámos por ver o primeiro – A vida de Pi. É simplesmente arrebatador. Há momentos, imagens, sons de pura poesia. Se tiverem a oportunidade de ver este filme, não a percam, vale mesmo a pena!
Quanto ao cinema em si, é do melhor que se poderia esperar. O auditório a que fomos é grande, espaçoso e confortável. Dispõe de tecnologia 3D, um bom sistema de som, há pipocas, snacks e bebidas para todos os gostos. Os filmes falados em inglês são legendados em indonésio, o que nos parece fazer sentido, uma vez que ainda não é possível legendá-los em tétum e fazê-lo em português iria infelizmente perverter o efeito pretendido de trazer o cinema aos timorenses (a verdade é que se ainda são poucos aqueles que falam fluentemente português, menos são os que estão aptos a ler as legendas). Os bilhetes são caros para o nível de vida médio (por exemplo, um filme a 3D na sessão da noite ao fim-de-semana custa dez dólares por pessoa), mas há promoções atractivas que democratizam o acesso às maravilhas da sétima arte: às segundas, os estudantes só pagam três dólares; às terças, na compra dum bilhete oferecem outro; às quartas e quintas, o preço do bilhete é quatro dólares; nos restantes dias, os preços são progressivos, ou seja, as sessões da tarde são mais baratas e as da noite mais caras. A verdade é que a plateia da nossa sessão compunha-se dum misto de portugueses, indonésios e timorenses, todos a partilhar o mesmo gosto pela cultura cinematográfica e satisfeitos pela oportunidade de tê-la agora aqui tão perto.
É difícil expressar a alegria que sentimos por termos um verdadeiro cinema em Díli! Este era daqueles prazeres antigos que tínhamos em Lisboa e uma rotina à qual muito custou desabituarmo-nos. Mas felizmente o “jejum” acabou e agora já temos as últimas novidades “numa sala perto de si”!
Na primeira ida ao cinema em Díli, pipocas e os bilhetes para "A vida de Pi" =)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ano novo, vida nova


A todos os nossos leitores começamos por desejar um bom ano 2013! Os tempos estão difíceis, mas uma boa dose de optimismo nunca fez mal a ninguém, por isso há que ter esperança neste ano que agora se inicia!

Como devem ter reparado, estivemos ausentes por uns tempos mas por motivos que compreenderão: trabalho, férias, problemas na internet, mudança de casa e uma viagem muito ansiada até Portugal para passar o Natal junto da família e dos amigos. Confessamos que no meio de tudo isto também nos lembrávamos do blogue e de como estávamos “em falta” para convosco. Mas o tempo foi passando e só agora chegou aquele momento em que dissemos “de hoje não passa” e cá estamos nós de novo.

Ora, como sabem, este blogue teve, desde sempre, um prazo de duração determinado à partida: os dois anos da nossa estadia em Díli. Esses dois anos, que justificaram a criação do blogue e a partilha de informação com todos aqueles que têm algum interesse em Timor-Leste, chegaram ao fim e por isso deveria estar também a chegar o fim anunciado do nosso blogue. Mas, como diz o ditado, “Ano novo, vida nova” e por aqui a novidade é que adiámos o nosso regresso a Lisboa por mais dois anos. A verdade é que, por diversas razões (sobretudo profissionais), decidimos ficar em Díli por mais uns tempos e, por esse motivo, a esperança média de vida deste blogue duplicou. Por isso, para nós é mais "Ano novo, tudo se mantém" e essa é a novidade!

Tentaremos, na medida do possível, continuar a publicar com regularidade as fotografias e as histórias que preenchem a nossa estadia nesta meia-ilha e esperamos que continuem desse lado a acompanharem-nos como fizeram até agora.

Assim, justificou-se alterar o cabeçalho do blogue e actualizar alguma da informação que lá estava. Começa aqui a nova fase do “Novo Selvagem”, esperamos que gostem!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As duas caras de Timor-Leste


Um artigo muitíssimo interessante sobre Timor-Leste, cuja leitura recomendamos:

“Dez anos depois da independência, Timor-Leste continua por construir. Quase metade da população vive abaixo do nível de pobreza, a corrupção não pára de subir, os manuais não chegam às escolas. Há quem diga que Timor não está a "semear" o dinheiro do petróleo, está a enterrá-lo. E quem lamente: "Em Díli, os grandes não se entendem. Não se amam e o povo sofre".”

Podem ler o texto completo aqui.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Música para os vossos ouvidos!


Para todos aqueles que não estiveram presentes no concerto do Luís Represas no Hotel Timor e para aqueles que, tendo lá estado, desejem recordá-lo, aqui fica o link da TSF onde podem ouvi-lo.

Com esta internet tão lenta não conseguimos carregar o ficheiro, pelo que não sabemos se contém o concerto na íntegra ou parcialmente. De qualquer modo, ficam com um “cheirinho” do que lá se passou. Aproveitem!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

12 de Novembro - Dia da Juventude

Dia 12 de Novembro é feriado em Timor-Leste para celebração do Dia da Juventude. O nome dado ao feriado é uma escolha feliz que contrasta com o trágico acontecimento que, em 12 de Novembro de 1991, pôs este dia na cronologia histórica do país. Foi o dia do massacre no cemitério de Santa Cruz. O dia em que, durante o cortejo de homenagem ao jovem Sebastião Gomes (membro da resistência que havia sido morto às mãos de forças ligadas ao regime indonésio), militares armados dispararam sobre a multidão de jovens indefesa que chegava ao cemitério onde o jovem está enterrado para aí continuarem com os protestos pacíficos. Morreram mais de duas centenas de pessoas, na sua maioria jovens.
O acontecimento atroz apenas chegou ao nosso conhecimento graças às filmagens do repórter de imagem inglês Max Stahl. As imagens, que despertaram o mundo para o que se passava em Timor-Leste, falam por si e relembram-nos de que há momentos da História que não se podem esquecer para que não se possam repetir. E porque se não fossem eles provavelmente o rumo da História teria sido outro, aqui fica a nossa homenagem a todos aqueles que faleceram neste dia e ao corajoso Max Stahl!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Concerto do Luís Represas em Díli


Quase um mês de ausência é imperdoável. A todos aqueles que por aqui foram passando à procura de novidades e partiram desapontados, as nossas desculpas! As justificações são muitas e todas esfarradapas, mas são as que temos: trabalho, trabalho, trabalho, muita preguiça, a visita do Nuno e do Gonçalo que vieram de Lisboa e mereceram toda a nossa atenção por alguns dias.

Comecemos então o reporte dos acontecimentos do último mês.
No dia 19 de Outurbo, assistimos ao  concerto do Luís Represas no Hotel Timor para angariação de fundos para a reconstrução do parque desportivo do Sport Díli e Benfica. Longe de ser  um cantor da nossa preferência, acabou por ser uma noite bem divertida, com jantarada na companhia dos amigos, a trautear o refrão de alguns êxitos antigos como Feiticeira, Perdidamente e 125 Azul. Para a posteridade fica a fotografia com a "vedeta", bem simpática por sinal!
Luís Represas, Joana e Bruno à saída do concerto no Hotel Timor

Num país onde os eventos culturais e musicais são ainda raros, soube bem passar uma noite diferente e terminar a ouvir o sempre emocionante tema Timor cantado em tétum por um coro de jovens timorenses acabou por ser a cereja no topo do bolo. Uma bela noite solidária e musical em Díli!

domingo, 7 de outubro de 2012

Monte Ramelau

O Monte Ramelau, ou em dialecto mambai Foho Tatamailau (“monte avô de todos”), é a mais alta montanha da ilha de Timor e o ponto mais alto de Timor-Leste, com 2.963 m de altitude (no período  colonial foi o pico do império português). A montanha localiza-se aproximadamente 120 km a sul da capital Díli, no subdistrito de Hatu Builico, distrito de Ainaro.
Escalar até ao cume do Monte Ramelau foi o desafio mais difícil a que nos propusemos nas nossas voltas por Timor. A tradição entre os turistas é subir a tempo de assistir, lá em cima, ao nascer do sol. Em média, a subida leva entre 2h30 (para os mais bem preparados) e 3h30 (para os mais lentos). Existem duas alternativas principais para fazê-lo: uma é jantar e dormir em Hatu Builico, sair por volta das três da manhã e caminhar durante a noite até ao cume; a outra é começar a caminhada ao final da tarde, dormir numa cabana a vinte minutos do cume e acordar de madrugada para caminhar o percurso que falta. Optámos pela primeira mas não estamos certos de que tenha sido a melhor!
A coisa começou mal ainda antes de irmos dormir: o guia que o gerente da pousada nos tinha arranjado apareceu a dizer que, nessa noite, havia festa em Hatu Builico e que por essa razão não iria acompanhar-nos (qual é a probabilidade de escolhermos subir a montanha no dia em que há festa em Hatu Builico? Ou será que Hatu Builico é a aldeia festivaleira cá do sítio?). Ficámos logo doidos a ver o plano ir por água a baixo, mas o desistente tinha uma alternativa preparada: o primo Jaime de catorze anos faria a caminhada connosco. Bom, não gostámos nada da ideia de subir ao Ramelau durante a noite guiados por um puto, mas ambos garantiram que ele conhecia perfeitamente os trilhos e que fazia aquela caminhada semanalmente desde criança. Sem grandes alternativas (ou subíamos com o Jaime, ou não subíamos), lá aceitámos a troca e fomos dormir umas horinhas.
Às 2h30, levantámo-nos, equipámos com bons agasalhos, botas de caminhada e laternas e tomámos o pequeno-almoço. O Jaime aparece-nos de chinelos e enrolado num cobertor, acompanhado do amigo Ronaldo, de dez anos, que também decidiu ir. Disseram-nos que não precisavam de mais nada e que os pais não se importavam que eles subissem ao Ramelau sozinhos. Sinceramente, acreditámos.
Partimos então de carro até ao santuário do Ramelau, onde termina o caminho transitável por automóveis. Quando saímos do carro, deslumbrámo-nos com o céu mais estrelado que alguma vez vimos! Parecia mesmo que o espaço era habitado por milhões de pirilampos. A altitude e o facto de não existir qualquer luz artificial num raio de quilómetros faziam com que a luz da lua e da estrelas estivesse magnificamente intensa. Memorável!
Aquecemos um pouco e começamos a subir o primeiro troço, que consiste numa escadaria sem fim, cheios de determinação e a bom ritmo. O ritmo foi sendo reduzido gradualmente e no final da escadaria (ainda só estávamos a andar há vinte minutos) já a Joana estava de rastos. Parámos um pouco, sentámo-nos, bebemos água e recomeçámos. Daí a nada já outros membros do grupo acusavam o cansaço. Eram as pernas a latejar, o coração que parecia explodir, dor de burro, dores nos joelhos, quebras de açúcar, quebras de tensão...enfim, tornou-se evidente a nossa fraca forma física mas lá fomos continuando sempre a andar a um ritmo cada vez mais lento. Entre um gole de água e um pacote de açúcar, foram inúmeras as vezes em que pensámos desistir. A sério, houve momentos em que o mais sensato pareceu-nos ser sentarmo-nos numa pedra qualquer e ali esperarmos pelo regresso dos outros.
Se a primeira metade da subida abalou sobretudo a Joana, na segunda foi o Bruno que se foi abaixo. Progredíamos a um ritmo lentíssimo e, por muito que o Jaime dissesse que estávamos a ir bem e que já faltava pouco, podíamos jurar que íamos ser o grupo mais lento da história das subidas ao Ramelau e, pior ainda, aquele que não chegaria a tempo de ver o nascer do sol! Diga-se que o Jaime não vacilou uma única vez. De facto, aqueles olhos e aquelas pernas conheciam bem a montanha.
Foi a motivação mútua que nos fez continuar. Sempre que um parecia estoirado, o outro incentivava-o a continuar, a pôr literalmente um pé à frente do outro e então encontrámos a estratégia vencedora: andar dez minutos muito devagar e parar um a dois minutos para recuperar o fôlego. Nunca andámos mais do que aquilo, nem parámos mais do que isto. A subida continuamente íngreme (sem um único troço plano), o piso de pedra solta e o vento cada vez mais frio não perdoavam e tornavam tudo ainda mais difícil. Não tivesse sido esta entreajuda permanente e facto de nenhum de nós querer defraudar o outro e ambos teríamos desistido.
Mais decididos a cumprir o objectivo que nos tinha levado até ali, fomo-nos arrastando até chegarmos à tal cabana onde se pode pernoitar. O nosso guia benzeu-nos a todos, riscando uma cruz com terra na nossa testa. Disse-nos que estávamos a entrar em terra de espíritos e quem não cumprisse a tradição e mostrasse respeito pelos “antigos” não poderia continuar. É que, segundo a crença local, quando uma pessoa nativa daquela região morre, o seu espírito vai para o alto do Tatamailau e são os espíritos que guiam até ao cume os bons viajantes e desnorteiam aqueles que não os respeitam.
Foi ao chegarmos a este ponto que, pela primeira vez, nos apercebemos de que já estávamos a chegar, pois sabíamos que aquela cabana ficava apenas a vinte minutos do cume. Naquela altura, no entanto, vinte minutos a subir parecia-nos a continuação duma tortura eterna. Aproveitamos o descanso dado pela pausa e pelo único momento de terreno quase plano para olharmos para o relógio e qual não é a nossa surpresa quando vimos que afinal estávamos dentro da média! Todos aqueles que nos relataram subidas em passo rápido quase sem paragens não passam duns gabarolas, é o que é! A verdade é que nós, que fomos sempre em passo (muito) lento e parámos um sem número de vezes, estávamos a fazer o mesmo tempo que estes supostos “Pépes-rápidos”.
Com a motivação extra de estarmos “na recta da meta” sem atrasos, lá seguimos com o vento a dar agora uma forte ajuda, uma vez que subia a encosta da montanha connosco.
Por fim, quando a montanha parecia estar mesmo a acabar, ei-la: a estátua da santa no topo do Monte Ramelau. Conseguimos! Chegámos! Alegria! Cansaço! Preciso de me sentar! Olha, o sol ainda não nasceu! Não acredito que conseguimos! Em 2h45! Ainda bem que não desistimos! Nem acredito que conseguimos! (sim, pensámos e repetimos esta frase dezenas de vezes)
E assim foi, às 5h45 conquistámos o cume do Monte Ramelau. O frio era imenso, o vento inexplicável, forte, gelado, ensurdecedor. Estávamos bem agasalhados mas assim que tirávamos a mão do bolso ela parecia congelar e todos os movimentos se faziam em câmara-lenta. Ficámos ali sentados, orgulhosos, a contemplar a vista e o feito que acabaramos de alcançar. As núvens passavam por nós a uma velocidade incrível e, ao fim de algum tempo, o sol começava timidamente a aparecer. Ali permanecemos, imóveis, a ver, a sentir, a descansar, a fotografar. As cores do céu mudaram. O sol nasceu. De repente, tudo o que nos tinha levado até ali acabou. Já não havia motivo para permanecer e descemos, despedindo-nos da montanha, do esforço e do sacrifício. Ficou tudo lá em cima. E a descida foi bem mais fácil, claro.
À luz e ao calor do dia, pudemos então ver os trilhos por onde tínhamos passado, os precipícios aos quais milagrosamente todos escapámos, os vales, as ribeiras, as florestas destruídas por napalm que só agora começam a renascer, as rochas, os troncos, os prados. Descemos alegres, com a ajuda da gravidade e depressa chegámos ao carro.
Incrivelmente, nem o Jaime, nem o Ronaldo tinham fome ou sede, só calor. Nós, meninos da cidade mal-preparados para as agruras da montanha, tínhamos tudo, sobretudo exaustão. Em Hatu Builico, lanchámos, mudámos de roupa e partimos para Díli. A prova estava superada!
Se nos perguntarem se a subida valeu a pena, valeu. Se não a tivéssemos feito, ficariamos para sempre arrependidos a pensar como seria. Se nos perguntarem se pensamos em lá voltar, não (pelo menos enquanto nos lembramos de como esta custou). Se nos perguntarem se foi o nascer do sol mais bonito que vimos em Timor, foi lindo mas fica em pé de igualdade com o de Jaco, de Díli e outros tantos maravilhosos que já aqui vimos. Por isso, em nossa opinião, a tradição turística não faz assim tanto sentido. Para aqueles que têm uma boa preparação física, talvez seja indiferente, mas para todos os outros seria muito melhor passarem uma noite bem dormida em Hatu Builico e pela fresca das 6h ou 7h da manhã subir a montanha e poder apreciar a paisagem, sem a pressão de ter um momento certo para chegar lá acima e com a amenidade trazida pela luz e calor do dia. Seria um belíssimo passeio de montanha, sem dúvida, e certamente bem mais acessível à generalidade das pessoas.
Aqui ficam as fotografias para que possam apreciar a vista mais alta de Timor-Leste e julgar por vocês próprios!

Chegada às 5h45

Bem "embrulhada", a apreciar os efeitos da luz

Mar de núvens

O vermelho passa a laranja

 
O sol começa a aparecer

Joana e o sol a nascer no Ramelau, para mais tarde recordar

 
Bruno e a nossa estrela-maior


O Glorioso no Ramelau!

Homenagem dos Comandos

Homenagem dos Atiradores

"Portugal, alto império que o sol logo em nascendo vê primeiro"

Homenagem dos ciclistas (têm a nossa total admiração)

A Santa

Nasceu!

Cada vez maior e mais brilhante!

O sol já alto

A despedida da montanha

Jaime e Ronaldo, nova geração de guias do Ramelau