quarta-feira, 18 de abril de 2012

Timor-Leste tem novo Presidente: Taur Matan Ruak

Com o devido pedido de desculpas pelo atraso (graças ao excesso de trabalho e à falta de tempo para dedicar ao blogue), anunciamos a eleição do novo Presidente da República Democrática de Timor-Leste: Taur Matan Ruak.

Os resultados provisórios distritais divulgados pelo Secretariado Técnico da Administração Eleitoral dão a vitória na segunda volta ao general Taur Matan Ruak com 61,23%. Francisco Guterres Lu Olo obteve 38,77%. Os dois candidatos decidiram prestar declarações apenas após o anúncio dos resultados definitivos, pelo que, até agora, não há grandes reacções a registar.

Todo este período eleitoral decorreu na maior tranquilidade e sem qualquer incidente registado em Díli (pelo que fomos sabendo, houve apenas pequenos incidentes em Baucau e em Viqueque mas sem vítimas, nem danos a lamentar... apenas as já “tradicionais” pedradas à caravana do candidato rival, o que infelizmente não é novidade neste país). Aliás, aproveitamos o fim-de-semana da Páscoa para ir dar uma volta até à ponta leste da ilha e não vimos qualquer sinal de ânimos exaltados.

Mesmo depois de se conhecer o vencedor, não houve qualquer manifestação nas ruas de Díli (nem de apoio, nem de contestação) e toda esta semana tem sido pautada pela plena normalidade.

Aproveitamos para informar-vos de que já foi marcada a data das eleições legislativas para o dia 7 de Julho. Esperemos que tudo decorra da mesma forma que estas presidenciais!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sismo em Sumatra

Hoje, por aqui, não se fala de outra coisa. O sismo em Sumatra foi assustador, mas pior ainda foi o suspense causado pelo alerta de tsunami. Conhecemos pessoas que são de lá, que estão lá perto ou que tinham planos para lá ir. Obviamente que a preocupação por eles é muita.

Mas, para que fiquem todos descansados, aqui em Díli não se sentiu absolutamente nada e o alerta de tsunami não cobriu o território de Timor-Leste.

Claro que vivendo numa ilha banhada pelo Índico e pelo Pacífico, não podemos deixar de estar atentos a estas notícias e de pensar quão desprotegida é a costa timorense no caso disso um dia vir mesmo a acontecer. No entanto, embora ocasionalmente se sintam os sismos por aqui (ainda nenhum de nós sentiu nada), algumas pessoas têm-nos dito que a profundidade e características da fossa oceânica  entre Timor e Ataúro reduzem muito a probabilidade de chegar aqui um tsunami. Queremos acreditar nisto! Que Ataúro nos protegerá! E focamos as nossas preocupações nos povos vizinhos, tão expostos a eventos naturais, imprevisíveis e desvastadores como o que aconteceu ontem. Hoje estamos com o povo de Sumatra!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Boas surpresas que vocês nos fazem!

Certo dia, inesperadamente, aparece um desconhecido que sorri e diz: “Gosto muito do vosso blogue”!

Aconteceu há uns meses com o Bruno e hoje repetiu-se com a Joana. Dois estranhos que nos abordaram com a gentileza de velhos conhecidos, que sabiam os nossos nomes, as nossas caras, as nossas viagens (ainda bem que gostou de Singapura!) e que, em certa medida, nos conhecem a nós.

Na nossa cabeça: Ai que vergonha! Ai que responsabilidade! Espero que esteja a gostar! E que não fique desiludido! Estará tudo a correr bem?

Mas depois a simpatia é tanta e tão genuína que quando damos por nós já trocámos números de telefone, disponibilizámo-nos para ajudar naquilo que for possível e comprometemo-nos a marcar um jantar para um dia destes!

Se há coisa que este blogue nos trouxe, sem que o esperássemos, foi leitores-amigos, que dos quatro cantos do mundo nos acompanham e torcem por nós à distância. E que, quem sabe um dia, iremos encontrar assim de tropeção à saída do emprego para ir almoçar!

Obrigada a todos os que lêem este blogue e ainda mais aos que comentam os nossos posts! Com o vosso contributo e apoio, a motivação para continuar a escrever e a fotografar fica reforçada! =)

Joana e Bruno de Jaco para o Mundo!

Pousada de Baucau

A Pousada de Baucau é, na nossa opinião, um dos mais agradáveis sítios para passar o fim-de-semana fora de Díli. Aqui sabemos sempre com o que contar (um dos maiores entraves às saídas para os distritos é que nunca sabemos se vamos encontrar dormida, um sítio onde jantar, ou sequer onde beber um café! Na verdade, até existem algumas pousadas, estalagens e guest houses espalhadas por todo o país, mas como os respectivos “gerentes” raramente atendem o telemóvel, não dá para reservar e podemos lá chegar e os quartos estarem todos ocupados, ou não ser possível almoçar porque os funcionários foram para um casamento ou funeral!).

Na Pousada de Baucau, pelo contrário, sabemos desde logo que vamos encontrar níveis de conforto e profissionalismo bem acima da média timorense. Para começar, é possível fazer reservas por telefone ou online (e neste último caso a resposta é recebida em menos de vinte e quatro horas). Os quartos cumprem todos os requisitos mínimos: cama de casal com roupa a cheirar a limpo, ar condicionado e casa-de-banho privada (se bem que já a precisar dumas obras). O restaurante é da melhor qualidade, num misto de cozinha timorense e portuguesa e com o mimo de ter leite-creme na lista de sobremesas!

O edifício em si é muito pitoresco, todo cor-de-rosa (parece uma casinha de bonecas) e com uns jardins bem cuidados, onde até podemos assistir a autênticas macacadas.

Segundo o site oficial: “O ínicio da Pousada de Baucau data dos finais dos anos 50, com o nome “Estalagem de Santiago”. Adquiriu a actual denominação nos finais dos anos 60, tendo sido ampliada e melhorada. Durante o período de ocupação indonésia passou a chamar-se “Hotel Flamboyang”, tendo também sido a sede regional dos serviços secretos do exército indonésio e servido de prisão nalgumas das suas instalações. Foi profundamente reabilitada e ampliada nos princípios de 2002, readquirindo a denominação anterior de “Pousada de Baucau”. A 13 de Maio de 2002 reabriu com a presença do Comandante Xanana Gusmão e do Bispo de Baucau,  Dom Basílio de Nascimento.

Estão previstas mais obras de reabilitação e ampliação, incluindo a construção dum auditório que capacitará a Pousada para receber outro tipo de eventos que não os meramente turísticos.

Um espaço que vale bem uma visita e onde regressaremos já neste fim-de-semana prolongado que se aproxima para um belo almoço entre amigos!
Os macacos da Pousada a comer banana no mata-bicho (que em tétum significa "pequeno-almoço")

Mais macacadas

O restaurante

A eescadaria da entrada

A recepção

O Bruno já mata-bichou e está pronto para se fazer à estrada

Foto "para mais tarde recordar" na entrada da Pousada

Vista dos jardins e da ala dos quartos

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Viver em Timor pelos olhos duma criança

Quando somos crianças, os limitados conhecimentos de geografia, do espaço, do tempo e da distância dão-nos uma percepção distorcida e muito própria do mundo. É tão engraçado tentarmos ver o mundo pelos olhos duma criança e percebermos aquilo que as confunde e as explicações que encontram para resolver esse dilemas com que se vão deparando enquanto crescem.

Há dias, a propósito do aniversário da Joana (é verdade, aquela informação no cabeçalho já está muito desactualizada... é incrível como o tempo passa a voar!), a Margarida, a nossa querida prima de sete anos, brindou-nos com esta pérola:

Sara (irmã da Joana): Ainda te lembras do nome do país onde a Joana está a viver?

Margarida: Timor... é muito longe mas faz parte do mundo. Se fosse de outro mundo, a Joana não era viva.

Ahahah! Hilariante! E assim relembramo-nos que estamos longe mas ainda vivemos neste mundo (embora às vezes não pareça)! =)
O mar que nos separa, ou antes o mar que nos une! Foto tirada em Jaco (um paraíso que não parece deste mundo!)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Kari Matenek - Espalhar a Sabedoria

Um dos choques iniciais que tivemos à chegada a Timor-Leste foi o escasso número de timorenses com conhecimentos de português. Claro que este choque só ocorreu por completa ignorância da nossa parte. De facto, neste aspecto (como em tantos outros), a História foi dura com o povo timorense.

O contacto dos portugueses com os timorenses data de 1512 (pois é, já foi há 500 anos e como é possível restarem tão poucos sinais duma presença de séculos?!). Os navegadores chegaram vindos de Malaca, em busca de especiarias e sândalo, e nessa altura a língua utilizada no comércio era o malaio (raiz comum de muitas línguas do Sudeste Asiático).

Com a fixação permanente de colonos portugueses nas ilhas de Timor e das Flores (é verdade, existe uma ilha no arquipélago indonésio com o nome “Flores” e onde se celebra a Páscoa segundo as tradições portuguesas), o ensino da língua portuguesa começou a ser implementado, sobretudo pela mão dos missionários dominicanos.

No entanto, calcula-se que, em 1940, apenas 4% dos timorenses falavam Português e que, em 1960, seriam 20%. Como se explica esta situação? Existem vários factores que contribuiram para tão fraca difusão da língua: a distância de vinte mil quilómetros de Portugal; o reduzido orçamento destinado ao ensino da língua; o reduzido número de professores e de escolas; a falta de interesse da maioria dos timorenses; a falta de publicações e de programas de rádio; a existência de cerca de duas dezenas de línguas e dialectos locais, que permite aos falantes usarem o Português só no âmbito da escola, do trabalho ou em actos oficiais.

Durante o período da ocupação indonésia (1975-1999), o uso do português foi proibido e o ensino da língua portuguesa foi banido. Contudo, alguns padres, professores, funcionários públicos e até membros da guerrilha continuaram informalmente a comunicar em Português, desafiando as autoridades indonésias e arriscando sofrer na própria pele pesados castigos por isso. A língua que até aí era familiar tornou-se estranha (ainda que não fosse dominada pela maioria, o facto é que o português era utilizado como fonte de novo vocabulário). O Bahasa Indonésio instalou-se e rapidamente foi aprendido (não só por ser uma língua relativamente simples, mas também por partilhar a origem malaia) e como segunda língua foi adoptado o Inglês.

Com a independência, o Português foi escolhido como língua oficial de Timor-Leste, a par do Tétum. Mas, mais uma vez, a sua implementação depara-se com grandes obstáculos: há sectores da sociedade que são contra o uso da língua colonizadora, que nunca esteve verdadeiramente disseminada e com a qual perderam o contacto há décadas; as línguas e dialectos locais e as línguas estrangeiras (em especial, o Bahasa Indonésio e o Inglês) são fortes concorrentes; a falta de professores habilitados ao ensino da língua; a falta de livros, de jornais, de rádios e de televisão em português.

Tudo isto faz com que o Português continue a ser visto como uma língua de elites e de velhos, não sendo falado (nem sequer compreendido) por muitos. As novas gerações recomeçam a ter contacto, a aprender e a falar Português mas ainda falta muito para que o Português deixe de ser o Mirandês cá do sítio!

É neste contexto que surge o Kari Matenek (“Espalhar a Sabedoria”), um programa de televisão didático e divertido, destinado aos mais novos, que incentiva à aprendizagem da língua. Anita e Tinito são dois bonecos que ensinam um ao outro Português e Tétum, respectivamente. Já vimos um episódio e gostámos muito! É dinâmico, adaptado à realidade local, despretensioso e mais eficaz do que as inúmeras bibliotecas muito organizadas e limpinhas mas que estão sempre fechadas ao público! Sem dúvida, uma iniciativa que louvamos por diversas razões, destancando-se ainda o facto de ser o primeiro programa infantil da TVTL! Parabéns à equipa!

Podem ficar a conhecer melhor este projecto e as personagens que animam as tardes na televisão através dos links que se seguem:

http://videos.sapo.tl/AOLkhtR9ytSicTZ7QOmY

http://www.ipad.mne.gov.pt/CentroRecursos/Noticias/ArquivoNoticias/Paginas/Projecto-de-Apoio-%C3%A0-Comunica%C3%A7%C3%A3o-Social,-a-primeira-s%C3%A9rie-infantil-produzida-e-transmitida-em-Timor-Leste-Kari-Matenek.aspx

Apresentamo-vos: Tinito e Anita (foto daqui)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Resultados da 1.ª volta

Depois de contados mais de 75% dos votos, Lu Olo e Taur Matan Ruak são os candidatos que vão à segunda volta das presidenciais de Timor-Leste, ainda sem data marcada (sendo certo que deverá ocorrer dentro de trinta dias). O que na realidade não constitui grande surpresa, pois até já aqui tínhamos previsto essa possibilidade, tal como a de haver uma segunda volta.

Curiosamente, os comícios que fotografámos também foram os destes dois candidatos e assim fica o registo para a posterioridade.

Teremos então dois antigos guerrilheiros a disputar a presidência do país, o que espelha bem o peso que ainda têm na sociedade nos dias de hoje! São considerados verdadeiros heróis nacionais (ainda hoje Ramos Horta o disse no seu discurso da derrota) e ambos têm inúmeros apoiantes. Esperemos que a segunda volta se realize no ambiente pacífico que caracterizou esta primeira volta!

Para que tenham a informação completa, seguem-se os resultados provisórios, divulgados pelo Secretariado Técnico da Administração Eleitoral de Timor-Leste, quando estão contados 475.795 votos (75,94%):

1 - Francisco Guterres Lu Olo - 128.266 (28,48 por cento)

2 - Taur Matan Ruak - 113.553 (25,18 por cento)
3 - José Ramos-Horta - 80.291 (17,81 por cento)

4 - Fernando La Sama de Araújo - 79.653 (17,67 por cento)

5 - Rogério Lobato - 16.090 (3,56 por cento)

6 - José Luís Guterres - 9.053 (2,01 por cento)

7 - Manuel Tilman - 2.080 (1,80 por cento)

8 - Abílio Araújo - 6.139 (1,36 por cento)

9 - Lucas da Costa - 3.826 (0,85 por cento)

10 - Francisco Gomes - 3.505 (0,78 por cento)

11 - Maria do Céu Lopes da Silva - 1.820 (0,40 por cento)

12 - Angelita Pires - 1.219 (0,38 por cento)

Os resultados oficiais serão anunciados pelo Tribunal de Recurso até ao início da próxima semana.